domingo, 2 de março de 2014

Globeleza, feio é o preconceito e a opressão à mulher negra


 Isso não é piada, é um preconceito elitista, racista e sexista.

Nota do autor: Antes de mais nada, deixo estabelecido que este é um artigo de repúdio à piada preconceituosa sobre a beleza da nova Globeleza. Sim, sou contra a iniciativa global, mas é uma jovem que se pôs à disposição de uma das raras situações em que ela sairia como protagonista e não coadjuvante, tendo em vista o racismo da grande mídia no Brasil.
Isso não é piada, é um preconceito elitista, racista e sexista.
Tá certo, o mal já está feito e não dá pra voltar no tempo e convencer a Globo a parar com essa folclorização do corpo negro. Depois da saída de Aline Prado, promoveram um concurso só de negras pra eleger a nova mulata (?!) Globeleza. Escolheram. E, diante das pseudo-críticas – na verdade,  julgamentos de rótulos pré-programados – resolvi dar asas à minha inquietação sobre a nova negra “mulata” Globeleza. Antes, vamos situar o caríssimo leitor.
Escrevi uma crítica/carta aberta sobre a visão global sobre o negro e, sobretudo, sobre a negra, que nunca é nem 1/3 da participação de concursos ‘não folclóricos’ como M 
enina Fantástica ou Musa do Brasileirão, mas é a primeira a protagonizar certames bundísticos que só duram uns 3 meses (como a própria Globeleza ou Musa do Caldeirão). Dito isso, eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, voltaria ao assunto pra comentar a repercussão do concurso e da vencedora. Pois bem, Nayara Justino, 25 anos, foi a eleita. Fico com uma certa apreensão quando vejo esse discurso “era meu sonho de infância”, pois, pode até ser político falar assim, mas denuncia o quanto nossas meninas negras são influenciadas a querer estar “no seu lugar” (ela chegou a declarar que ia desistir de estudar Educação Física para tentar a dança ou artes cênicas). Sabe, isso porque ela não poderia ser paquita, para coleguinha do Caldeirão ou bailarina do Faustão, teria que disputar uma ou duas vagas, que é o que sobra para dançarinas negras; e também não teria como sonhar em ser morena/loira do Tchan, pois são ambientes de exclusão do negro – aliás, muita vergonha do É o Tchan por promover esse termo ‘morena’ sendo o grupo oriundo do Estado mais negro fora da África, mas estou divagando.
A questão, ou melhor, as questões, aqui são outras. Primeira coisa, vi críticas infantilóides à beleza da jovem e questionamentos sobre a não escolha por uma “mais bonitinha”. Segunda questão, o que é beleza? Quem é essa beleza padrão que faz com que mais de meio mundo seja ‘mais ou menos, mais ou menos’? Mais do que discutir o sexo dos anjos – safadeeenhos – essas questões me colocam em posição de tentar teorizar que a construção social do que se entende por beleza física é uma bobagem que varia de local para local e de tempo para tempo, além da questão racial, pois, é muito específico o biótipo negro a ser admirado. Há décadas, mulher bonita era natural, macia, hoje, as saradas ganham noticiários só por entrar em academias e serem fotografadas, por exemplo. Vamos às considerações.
Primeiro, acho Nayara uma bela mulher. Notou? Não falei uma bela mulata ou uma bela negra, como costuma se falar, dando exata noção de que trata-se de um tipo diferente, uma coisa a ser adjetivada e não uma pessoa com sentimentos e nenhuma necessidade de agradar a gostos particulares, em se tratando de uma passista, ela tem que sambar e sambar bem. Pelo que vi, isso ela faz. Agora, observei críticas tão variadas que só pude concluir, com o perdão do clichê, que é falta do que fazer de quem fala. É simples, vi gente reclamando que Nayara tinha que ser mais mignon, como suas predecessoras, mais bonita – como sei lá quem seja a referência de beleza única e mundial – entre outras coisas genéricas que só tentam cagar regra e definir padrões que não fazem diferença.
Vamos pela primeira contestação: Se ela tem que ser mignon, mais fininha, mais “modelo de passarela” como suas antecessoras, isso ninguém ditou, até porque outros traços de antes não se repetiram nela, como as feições finas, a pele negra mais clara e os cabelos tratados por “alisamento” – caso de antecessora, Aline Prado. Sendo assim, não há um modelo físico específico, ou melhor, o modelo já é o fato de serem dançarinas negras apelidadas de mulatas, sambando em motivos coloridos e digitais durante o início de ano até o carnaval. Dizer que ela é muito corpulenta, como ouvi de pessoas próximas, é ignorar que negros também têm biótipos variados. Essa atual é uma negra mais típica do que as negras ‘embranquecidas’ de antes. O que eu vi foi uma jovem de curvas harmoniosas e com samba no pé. DANE-SE se ela não é fininha ou “bonita” como as outras. A beleza não é um manual, que você olha e fala “É/Não é” e, pronto, tudo resolvido. Há umas minúcias, um clima, um astral que a pessoa precisa passar pra ser bonita, não adianta formas. Se não, um dodecaedro poderia posar numa revista, ele também tem formas.
Puxando já o assunto pra esse lado, a construção social do que é bonito. Se Nayara fosse realmente “feinha” ela não teria a votação do público. Ela foi escolhida pelo público, ou seja, quem votou nela, se viu representado. Essa lenda de que pobre e preto gosta de ver riqueza na TV pra sonhar com o que nunca vai ter é uma das mentiras mais bem interpretadas desde “manga com leite faz mal”. Há um tempo, li uma pesquisa que dava conta de que a maioria gostaria de ver mais negros na TV, mesmo ainda dando audiência às emissoras, por pura inércia cultural, isto é, quanto mais se vê na TV, mais o público se agrada, até porque a visão sobre o pobre já mudo muito nos últimos anos. Basta ver a ascensão da chamada Classe C, se esse pobres com “hype” de classe média tivessem tal aversão à sua própria realidade, núcleos como o do bairro do Divino – uma apologia a Madureira –, na novela Avenida Brasil, não teriam o sucesso que tiveram e as Empreguetes não emplacariam músicas em DVDs populares.
Outra, vi comentários e montagens cruéis sobre a nova Globeleza. Vi uma montagem pejorativa em que comparava a nova musa do carnaval global a Leandro Firmino da Hora, quando interpretou Zé Pequeno, em Cidade de Deus (a que eu fiz a montagem lá no início do texto). Ok, respirei fundo pra responder essa questÃ. Esbarramos na construção social do gosto por beleza física etnocêntrico. Conheço muito poucas pessoas que realmente olham formas procurando beleza e não defeitos. Fazendo um adendo, as pessoas estão acostumadas a escolherem seus ídolos e querer que os outros estejam em pé de igualdade, daí, nascem os padrões de comparação de beleza. Por exemplo, se você vê gente branca em 95% das produções televisivas e os 5% negros, quando não alívio cômico ou capatazes de vilões, conseguem alguma proeminência de beleza, você conta nos dedos: Taís Araújo, Juliana Alves, Cris Vianna, Camila Pitanga e, quem sabe, uma globeleza aí.
Modelo de beleza negra muito restrito, não acha? Além do que, insinua que negros são tão genericamente iguais, que pessoas que nem se parecem possam ser comparados, por puro deboche. Quem disse que tanto Leandro quanto Nayara são feios? Eu não vejo traços tão deformados – em relação a uma estátua grega, como parece ser o padrão – que os façam pouco fotogênicos. Aliás, é bom lembrar, fomos invadidos (UIA!) e colonizados por europeus, mas a maior parte da população, devido ao tráfico de gente negra africana pra cá, é negra, índia, parda, mestiça, etc. Quando a corte real portuguesa veio pra cá, trouxe umas 15 mil pessoas, mas aqui já havia 23 mil, sendo a maioria de escravos. Faça as contas e veja que tipo de beleza física deveria ser a referência, dado o traço comum mais recorrente da população. Sim, negro! Acho muita maldade querer que escolham uma mais bonita sem contar o samba no pé, carisma e outras coisas que é o que te vale na hora de formar redes de relacionamentos em sua vida pessoal.
É só colocar mais umas 3 aí e você terá toda a participação negra com algum destaque na programação. Tá fácil de o negro e a negra se identificarem? E mais, tá fácil de você não achar que o negro tem que parecer branco pra agradar seu bom e exigente gosto por estética racial?
Basta ver como, independente da estética, você sempre comenta as fotos dos seus com “tá linda, amiga”, “olha o cara, bonitão”. Como seus entes queridos são tão lindos se a maior parte não obedece aos critérios excludentes da moda? Promete que vai pensar nisso pro titio Saga entender mais sobre as nuances confusas dos gostos sociais inventados? Ah, tá, então eu prossigo. A referência negra é tão diminuta na cultura pop porque somos maioria na população, mas a minoria que comanda a comunicação no país é branca e elitista. Falta gente nossa lá por trás das câmeras, na direção, nos roteiros e essas coisas, pois, eles sempre nos verão como um ser exótico. Mas meu ponto eu defendi, beleza não põe mesa e, já que a globelezação é inevitável, que se defenda o talento da escolhida e não uma suposta feiura que só existe na cabeça de quem se influencia por revista de moda e futilidade. Fizeram piada com a Miss França mestiça, com a Menina Fantástica paraense e com a Miss Angola/Universo negras, mas não fizeram piada com todas as outras. E aí?
É por isso que eu não julgo uma moça que entra nesse tipo de concurso. Olhe bem, com atenção, me diga o que você vê… ou melhor, o que você não vê. Sim, que menina negra não adoraria trabalhar com a Xuxa? Mas a Xuxa não tem espaço pra elas. Resta o quê? O carnaval, onde a loirinha pagaria mico se expondo assim.
Sabe o que dói? Ler na internet coisas como “o maior desafio de suas vidas”, falando das três finalistas do concurso Globeleza 2014, como se moças negras não fossem mais nada na sociedade, como se o concurso fosse um favor a elas. E, mesmo nesse universo televisivo restrito, onde a negra consegue sair da cozinha, vai para o palco sob olhares desejosos de que vá para a cama, pois é isso que vende a imagem da mulher brasileira, sobretudo negra, a sexualização de seu corpo como que feito pra servir aos anseios de quem quer ver sua beleza exótica em prática (nessa hora, os mulatólogos acenam com a cabeça ‘siiiimmmm’).
Antes de terminar, lógico, não poderia esperar outro post sobre isso – até porque não prometo voltar nesse assunto tão cedo – lanço-lhes um dilema pegando carona no livro/filme Ensaio Sobre a Cegueira. Não li o livro de Saramago e não assisti ao filme de Fernando Meirelles, mas questiono: Se todos fossem cegos, quem seria bonito? Hein? Hein?
 

FONTE: WORDPRESS

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