Nota do autor: Antes de mais nada, deixo estabelecido que este é um artigo de repúdio à piada preconceituosa sobre a beleza da nova Globeleza. Sim, sou contra a iniciativa global, mas é uma jovem que se pôs à disposição de uma das raras situações em que ela sairia como protagonista e não coadjuvante, tendo em vista o racismo da grande mídia no Brasil.
Isso não é piada, é um preconceito elitista, racista e sexista.
Escrevi uma crítica/carta aberta sobre a visão global sobre o negro e, sobretudo, sobre a negra, que nunca é nem 1/3 da participação de concursos ‘não folclóricos’ como M
enina Fantástica ou Musa do Brasileirão, mas é a primeira a protagonizar certames bundísticos que só duram uns 3 meses (como a própria Globeleza ou Musa do Caldeirão). Dito isso, eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, voltaria ao assunto pra comentar a repercussão do concurso e da vencedora. Pois bem, Nayara Justino, 25 anos, foi a eleita. Fico com uma certa apreensão quando vejo esse discurso “era meu sonho de infância”, pois, pode até ser político falar assim, mas denuncia o quanto nossas meninas negras são influenciadas a querer estar “no seu lugar” (ela chegou a declarar que ia desistir de estudar Educação Física para tentar a dança ou artes cênicas). Sabe, isso porque ela não poderia ser paquita, para coleguinha do Caldeirão ou bailarina do Faustão, teria que disputar uma ou duas vagas, que é o que sobra para dançarinas negras; e também não teria como sonhar em ser morena/loira do Tchan, pois são ambientes de exclusão do negro – aliás, muita vergonha do É o Tchan por promover esse termo ‘morena’ sendo o grupo oriundo do Estado mais negro fora da África, mas estou divagando.
A questão, ou melhor, as questões, aqui são outras. Primeira coisa, vi críticas infantilóides à beleza da jovem e questionamentos sobre a não escolha por uma “mais bonitinha”. Segunda questão, o que é beleza? Quem é essa beleza padrão que faz com que mais de meio mundo seja ‘mais ou menos, mais ou menos’? Mais do que discutir o sexo dos anjos – safadeeenhos – essas questões me colocam em posição de tentar teorizar que a construção social do que se entende por beleza física é uma bobagem que varia de local para local e de tempo para tempo, além da questão racial, pois, é muito específico o biótipo negro a ser admirado. Há décadas, mulher bonita era natural, macia, hoje, as saradas ganham noticiários só por entrar em academias e serem fotografadas, por exemplo. Vamos às considerações.
Vamos pela primeira contestação: Se ela tem que ser mignon, mais fininha, mais “modelo de passarela” como suas antecessoras, isso ninguém ditou, até porque outros traços de antes não se repetiram nela, como as feições finas, a pele negra mais clara e os cabelos tratados por “alisamento” – caso de antecessora, Aline Prado. Sendo assim, não há um modelo físico específico, ou melhor, o modelo já é o fato de serem dançarinas negras apelidadas de mulatas, sambando em motivos coloridos e digitais durante o início de ano até o carnaval. Dizer que ela é muito corpulenta, como ouvi de pessoas próximas, é ignorar que negros também têm biótipos variados. Essa atual é uma negra mais típica do que as negras ‘embranquecidas’ de antes. O que eu vi foi uma jovem de curvas harmoniosas e com samba no pé. DANE-SE se ela não é fininha ou “bonita” como as outras. A beleza não é um manual, que você olha e fala “É/Não é” e, pronto, tudo resolvido. Há umas minúcias, um clima, um astral que a pessoa precisa passar pra ser bonita, não adianta formas. Se não, um dodecaedro poderia posar numa revista, ele também tem formas.
Outra, vi comentários e montagens cruéis sobre a nova Globeleza. Vi uma montagem pejorativa em que comparava a nova musa do carnaval global a Leandro Firmino da Hora, quando interpretou Zé Pequeno, em Cidade de Deus (a que eu fiz a montagem lá no início do texto). Ok, respirei fundo pra responder essa questÃ. Esbarramos na construção social do gosto por beleza física etnocêntrico. Conheço muito poucas pessoas que realmente olham formas procurando beleza e não defeitos. Fazendo um adendo, as pessoas estão acostumadas a escolherem seus ídolos e querer que os outros estejam em pé de igualdade, daí, nascem os padrões de comparação de beleza. Por exemplo, se você vê gente branca em 95% das produções televisivas e os 5% negros, quando não alívio cômico ou capatazes de vilões, conseguem alguma proeminência de beleza, você conta nos dedos: Taís Araújo, Juliana Alves, Cris Vianna, Camila Pitanga e, quem sabe, uma globeleza aí.
É
só colocar mais umas 3 aí e você terá toda a participação negra com
algum destaque na programação. Tá fácil de o negro e a negra se
identificarem? E mais, tá fácil de você não achar que o negro tem que
parecer branco pra agradar seu bom e exigente gosto por estética racial?
É
por isso que eu não julgo uma moça que entra nesse tipo de concurso.
Olhe bem, com atenção, me diga o que você vê… ou melhor, o que você não
vê. Sim, que menina negra não adoraria trabalhar com a Xuxa? Mas a Xuxa
não tem espaço pra elas. Resta o quê? O carnaval, onde a loirinha
pagaria mico se expondo assim.
Antes de terminar, lógico, não poderia esperar outro post sobre isso – até porque não prometo voltar nesse assunto tão cedo – lanço-lhes um dilema pegando carona no livro/filme Ensaio Sobre a Cegueira. Não li o livro de Saramago e não assisti ao filme de Fernando Meirelles, mas questiono: Se todos fossem cegos, quem seria bonito? Hein? Hein?
FONTE: WORDPRESS
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