Apesar do recente espaço conquistado no mercado de moda, profissionais trans ainda encontram uma incoerente resistência num universo movido a quebra de padrões
A modelo transexual Glamour Garcia escolheu a profissão há dois anos. Foto: André Giorgi
1/9O inglês David Gandy, o espanhol Jon Kortajarena e o brasileiro Marlon Teixeira.
A grife masculina Sérgio K. costuma escolher tops internacionais
badalados para estrelar suas campanhas, sempre clicadas pelo não menos
prestigiado fotógrafo americano Terry Richardson. Os
anúncios da próxima coleção da marca, a de inverno, não serão
protagonizados por um nome famoso, mas por um modelo iniciante, o
polonês Oliwer Mastalerz, de 21 anos.Porém,
o grande destaque em relação à campanha, que acaba de ser clicada em
Nova York, não é a informação de que o rapaz é um desconhecido, mas fato
de ele ser um transexual. Nascido biologicamente mulher, ele fez um
processo de readequação de gênero e assumiu uma identidade masculina.A ação da brasileira Sérgio K. não foi isolada. Nos
Estados Unidos, a luxuosa loja de departamentos Barneys escalou um time
de 17 modelos transexuais para estampar o seu último catálogo,
fotografado pelo celebrado fotógrafo Bruce Weber e intitulado como “Brothers, Sisters, Sons & Daughters”.No Reino Unido, a trans Carmen Carrera, ex- participante do reality show “RuPaul’s Drag Race”, brilhou na capa da última edição britânica da revista Glamour.Esta
recente abertura do universo da moda para os modelos transexuais
empolga por se esboçar como um mercado de trabalho para esta parte
bastante marginalizada da comunidade LGBT. No entanto, os profissionais
do setor avaliam que o negócio está longe de ser um espaço aberto aos
trans.“O mercado de moda brasileiro é muito
conservador, vide a dificuldade de se inserir qualquer coisa diferente
do habitual na moda masculina”, avalia Fernanda Heinzelmann, pesquisadora de moda e mestre em Psicologia Social, com ênfase em estudo de gênero na PUC do Rio Grande do Sul.Protagonista de ensaio exclusivo para o iGay que ilustra esta reportagem, a modelo transexual Glamour Garcia, 25, percebe esta dificuldade desde que começou a trabalhar no mercado de moda, há dois anos.“O
mercado em si é complicado, a alta costura trabalha melhor por conta de
conceitos artísticos, porque é algo mais elaborado. Já a moda comercial
tem mais dificuldade para falar com a população, que tem uma visão mais
negativa do transexual. Grandes marcas querem vender”, avalia Glamour,
ressaltando que as grifes populares buscam tops que não causem
estranhamento e que provoquem uma identificação com uma faixa mais ampla
o possível de consumidores (as). “Existe um medo de reconhecer que
existe beleza na transexual”, lamenta a modelo.
Lea T é exemplo de evolução do mercado
A burocracia que dificulta o processo de
reconhecimento legal da identidade assumida pelos transexuais também
atrapalha, na opinião de Glamour. “Algumas transexuais ficam chateadas
de dar o nome de batismo na hora de se inscrever numa agência ou num
casting, um ato que é bem presente na profissão de modelo.”
EFEITO LEA T
A pesquisadora Fernanda aponta a famosa modelo transexual brasileira Lea T, filha do ex-jogador Toninho Cerezo, como um caso de profissional que conseguiu escapar destas dificuldades. Musa do estilista italiano Riccardo Tisci, da grife francesa Givenchy, a top alcançou destaque nas principais revistas de moda.“Ela é uma protagonista, algo bastante inédito no meio, até pela forma como ela foi recebida e o espaço que obteve. Não sei se isso tem a ver com o fato de ela ser filha do Cerezo, mas acredito que não seja só isso”, pondera Fernanda.
“
A moda vem descontruindo o feminino e o masculino, os corpos
estão ficando mais magros e as curvas dos corpos estão sumindo (Fernanda
Heinzelmann)
Sócio-diretor da Way Model, agência que representa Lea T no Brasil, Anderson Baumgartner,
responsável por agenciar Lea T no Brasil, vê a modelo como um marco. “A
grande maioria das pessoas começa a entender o que é ser transexual
depois dela. Tudo ainda é muito novo, assustador para muitas pessoas,
para as quais uma modelo transexual numa campanha pode deixar o público
confuso. Em 20 anos, ela vai ser lembrada por essa ruptura”, projeta
Baumgartner.
“Com a capa da revista Elle Brasil, em
dezembro de 2011, a Lea mostrou que é uma mulher. Depois fez desfile de
biquíni, mesmo antes da cirurgia. Tudo isso gera mídia, obviamente”,
pontua Baumgartner, dizendo que a modelo pode não agradar a todos, mas
tem um trabalho sólido. “Eu indico ela para clientes e nunca tive
problemas com isso”, revela o empresário.
Público fez petição para que Carmen Carrera seja nova modelo da Victoria's Secret
CURVAS SUMINDO DOS CORPOS
Mesmo
com as dificuldades, Fernanda acredita que a presença das modelos trans
é uma tendência natural de um universo que caminha cada vez mais para a
androginia.
“Há muitos anos a moda vem descontruindo o
feminino e o masculino, os corpos estão ficando mais magros e as curvas
dos corpos estão sumindo. A modelo transexual é, em parte, uma junção
da representação da androgenia”, teoriza a pesquisadora.
Baumgartner
tem uma visão mais pragmática de ascensão das modelos trans, levando em
conta trajetória de vida da filha de Cerezo como um ingrediente do
sucesso dela. “O meu trabalho é vender uma imagem, se ela não for boa,
não adianta. Quis agenciar a Lea porque ela tem uma história e um bom
biótipo, como qualquer outra modelo.”
Parte dos
consumidores já começa a interferir positivamente em favor das modelos
trans. 50 mil pessoas assinaram uma petição para que Carmen Carrera
integre o seleto time de modelos voluptuosas da grife americana de
lingeries Victoria's Secret, se tornando uma angel, como as tops da
marca são chamadas.
O que Carmen quer mesmo é ser incluída
plenamente na indústria fashion, como deixou claro em entrevista recente
ao canal CNN. "Eu não quero ser rotulada como um modelo transexual...
Por que eu tenho que estar à parte na indústria da moda?”, questiona
pertinentemente a modelo.FONTE:IGAY
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