Comunidades religiosas inclusivas ganham espaço no DF. Nelas, cristãos gays podem exercer a fé em Deus sem ter sua orientação sexual condenada
Desde muito pequena, a atendente de
telemarketing Vilma Timo sentia-se atraída por outras meninas. Durante
24 anos, dos 16 aos 40, tentou mudar esse desejo, que considerava
doentio e demoníaco. Bem antes da popularização do conceito de cura gay,
ela resolveu adotar uma fórmula pessoal para escapar das tentações.
Passou a adolescência com a Bíblia debaixo do braço e nunca pisou
numa boate. Membro da Assembleia de Deus, usava saias longas, cabelos
compridos e participava do conjunto de jovens da igreja. A fim de
livrar-se dos “pensamentos sujos”, também frequentou todos os cultos de
libertação que apareciam na sua frente. Foram horas incontáveis de
vigília e oração. Em um dos muitos jejuns que fez, lembra de ter
permanecido três dias sem beber nem comer. Sacrifício em vão. Continuou
se apaixonando por pessoas do mesmo sexo, sentiu-se muito frustrada por
isso e achou, em vários momentos, que Deus não a amava. Lutando contra
uma maré de sensações, ficou noiva de um rapaz da sua congregação, mas
terminou o enlace quando percebeu que não estava sendo honesta com ele
nem consigo mesma. Ela nunca considerou deixar a religião. Acima de
tudo, sempre manteve uma fé inabalável em que Jesus Cristo era a
salvação. “Hoje eu entendo que não tinha nada a ser curado. Deus me
aceita do meu jeito”, diz.
O primeiro grande impulso para conciliar sua crença
religiosa com sua orientação sexual veio em 2008. Depois de entrar numa
sala de bate-papo de mulheres na internet, ela conheceu a educadora
Andrea Oliveira. Em poucos meses as duas estavam namorando. No prazo de
um ano, já moravam juntas. Assim que começou a relacionar-se com Andrea,
Vilma deixou de ir aos cultos da Assembleia de Deus. Mas não ficou
longe da igreja por muito tempo. O segundo passo de sua busca foi dado
em 2012, quando o casal homoafetivo achou guarida num templo que recebeu
bem as duas. “Poder frequentar a igreja foi uma transformação em nossa
vida. Encontramos um refúgio”, afirma Andrea. No ano seguinte, munidas
de maior paz de espírito, elas encararam o desafio de uma fertilização in vitro e da maternidade, com a chegada ao mundo da filha, Catarina.
Foi a Comunidade Athos, uma integrante do rol das chamadas igrejas
inclusivas, que estendeu a mão para a dupla. Instituições como essa,
voltadas para a população LGBT, vêm ganhando seguidores no Distrito
Federal, bem como no resto do Brasil. Hoje, calcula-se que 10 000
homossexuais do país congreguem nesses espaços. Na capital, as duas
maiores frentes religiosas do tipo crescem em ritmo acelerado. A Athos,
da qual Vilma e Andrea fazem parte, exibe o aumento mais expressivo em
território candango. Quando foi inaugurada, em dezembro de 2005, a
comunidade cristã reunia apenas cinco membros. Pouco menos de uma década
depois, 300 fiéis frequentam os três cultos semanais no subsolo do
Edifício Eldorado, no Conic, região central de Brasília. Até o fim do
ano, a pastora Márcia Dias pretende aumentar seu rebanho em mais 200
indivíduos. Para isso, formou três novas células com o intuito de
atender às regiões administrativas de Ceilândia, Gama, Planaltina,
Samambaia, Santa Maria, Sobradinho e Taguatinga. Grupos também serão
abertos nas cidades goianas de Formosa, Rio Verde e Luziânia. “Recebemos
mensagens de evangélicos homoafetivos desesperados de todo o Brasil.
Precisamos levar Jesus a essas pessoas. Não são poucos os casos de
suicídio nesse contexto”, diz ela. Mãe de três filhos, avó de dois netos
e casada com Vera Lúcia da Silva, a pastora lésbica é a principal líder
espiritual gay no DF. “Não buscamos que nos aceitem, apenas que
consigamos conviver pacificamente”, afirma.
O presbítero Raphael Lira e o pastor Marvel Souza: membros da Cidade de Refúgio, que quadruplicou seus fiéis em um ano de existência (Foto: Roberto Castro)
A pastora Márcia, da Athos: “Não buscamos que nos aceitem, apenas que consigamos conviver” (Foto: Roberto Castro)
Outra comunidade com princípios semelhantes, a Cidade
de Refúgio, em Taguatinga, também lidou com uma receptividade que
superou as expectativas iniciais de Marvel Souza, seu pastor. Criada em
São Paulo, no ano de 2007, ela já marca presença em sete estados. Hoje, é
a igreja inclusiva que mais cresce no país. Sua sede paulistana deve
inaugurar, em 22 de junho, a primeira etapa de um templo para 2 000
pessoas. A unidade de Brasília, fundada em março de 2014, começou numa
sala acanhada. No prazo de um ano, contudo, precisou mudar de endereço
duas vezes para atender o número de seguidores no DF, que quadruplicou.
Apesar de 99% dos membros da comunidade religiosa serem homossexuais,
isso não transparece nos cultos. “A maioria das pessoas que participam
pela primeira vez só se dá conta desse aspecto no final, quando eu
apresento o meu esposo”, diz Souza. Ele segue a liturgia de igrejas
evangélicas tradicionais: oração, testemunhos, louvores, ministração
sobre dízimos e palavra pastoral. Toda pregação é feita rigorosamente
com o que está escrito na Bíblia.
Boa parte dos fiéis das igrejas inclusivas conta que
foi criada em lares religiosos. Eles não só frequentavam os cultos, mas
participavam de escolas dominicais, grupos de jovens, retiros e
ministérios. Acabaram saindo de suas denominações de origem por causa do
sofrimento. Mantinham vida dupla e não se sentiam acolhidos. As
famílias, evangélicas fervorosas, costumam cortar laços. Algumas até
toleram, mas poucas aceitam. Não são raras as histórias de expulsões
humilhantes, com o pastor da igreja anunciando a orientação sexual na
frente de todos. Esses cristãos gays seguem a Bíblia, prezam
relacionamentos monogâmicos e condenam a promiscuidade. Por isso, sofrem
preconceito de ambos os lados: tanto de outros cristãos que veem a
homoafetividade como uma heresia quanto de muitos homossexuais que não
entendem a opção por um caminho cheio de conflitos e repulsa.
Nessa dura trajetória para equilibrar corpo e alma,
essas pessoas encontram apoio nas denominações inclusivas, seguidoras de
uma teologia que começou a ser estudada na Inglaterra da década de 50
pelo sacerdote anglicano Derrick Bailey. A primeira igreja propriamente
dita, a da Comunidade Metropolitana, surgiu em Los Angeles, nos Estados
Unidos, em 1968. Fundada por um ex-ministro batista, o reverendo Troy
Perry, ela está presente em diversos países. No Brasil, hoje atuam onze
instituições, distribuídas por nove estados. Os grupos inclusivos
pioneiros daqui começaram a se formar na década de 90, embora a primeira
denominação nacional tenha surgido apenas em maio de 2002, ano
inaugural da Igreja Cristã Acalanto, comandada pelo pastor chileno
Victor Orellana.
Ao contrário das seitas cristãs tradicionais, as inclusivas não
acreditam que a heterossexualidade seja requisito para que alguém tenha
acesso à glória de Deus. “Não é porque a igreja é inclusiva que
aceitamos o pecado, claro. A única diferença está na forma como
interpretamos a homossexualidade”, diz o pastor Alexandre Feitosa. Para
ele, as bíblicas Sodoma e Gomorra, por exemplo, foram destruídas porque eram cidades más, e não por admitirem a prática homossexual. Segundo o pastor, nas duas localidades faltavam amor, misericórdia e hospitalidade. Autor de cinco livros sobre a Bíblia e
a homossexualidade, Feitosa defende a ideia de que as igrejas
tradicionais devem rever suas posições, pôr os trechos condenatórios em
contexto, estudar as traduções e olhar a questão gay com maior empatia.
Ainda de acordo com ele, seria necessário dar primazia a versículos que
dizem que Deus não julga as pessoas e que todos aqueles que creem em
Cristo são filhos dele (veja o quadro no final da matéria). “A Bíblia
já serviu de suporte para a escravidão e a dominação masculina sobre as
mulheres. Hoje, é usada para excluir minorias sexuais”, afirma. O
pastor cita o controle da natalidade como uma amostra do que já foi
revisto. “Não estamos mais nos tempos de Adão e Eva, quando o mundo
precisava ser povoado. As igrejas protestantes, por exemplo, não
condenam mais o uso de anticoncepcionais.”
"Isso é tão estapafúrdio quanto criar a igreja dos polígamos, das prostitutas e dos adúlteros."
Silas Malafaia, presidente do Conselho de Pastores do Brasil
A questão, contudo, é bem polêmica. Os que fazem essa
leitura são frequentemente acusados de falsos profetas, hereges e de
manipular a Bíblia. Presidente do Conselho de Pastores do Brasil,
entidade que reúne líderes de mais de 10 000 denominações, Silas
Malafaia não reconhece essas comunidades. “Para mim, elas não existem.
Isso é tão estapafúrdio quanto criar a igreja dos polígamos, das
prostitutas e dos adúlteros”, diz. Na visão dele, da mesma forma que é
preciso acreditar em reencarnação para ser espírita, um cristão
deve entender que a homossexualidade é uma prática pecaminosa e
abominável. Esse é um dos princípios da fé. Ainda segundo o pastor,
relacionar-se com pessoas do mesmo sexo é um comportamento que pode ser
modificado. “Esses pastores homossexuais conhecem muito bem a verdade e
sabem que não têm respaldo na Bíblia. Adaptar a palavra de Deus para o pecado é uma piada. Trata-se de uma teologia furada”, afirma.
Para o bispo Robson Rodovalho, líder da Sara Nossa
Terra, o cristão gay está em conflito. “Eventualmente, ou ele vai
descobrir que é cristão, ou vai descobrir que é gay”, diz Rodovalho.
Formado em física, ele explica que, no universo, as forças iguais se
repelem e os opostos se atraem. Para o bispo, vivemos numa sociedade
democrática e há espaço para todos. Mas ele acredita que a igreja é um
lugar reservado para quem busca espiritualização, não prazeres
secundários. Na Sara, tenta-se promover a harmonia do mundo interior do
gay que procura conforto de espírito. E seus membros são taxativos: a
homossexualidade deve ser sublimada para que a felicidade seja
alcançada. A pastora Sara Portela garante que curou sua homossexualidade
na igreja. Hoje, muitas pessoas visitam seu templo, em Taguatinga,
atrás desse tipo de inspiração. “Se a palavra de Deus condena uma
prática, nós temos de lutar contra ela”, prega. Para os que afirmam que
Sara nunca foi gay, a pastora responde que só ela sabe o que viveu e do
que gostava ou não.
Na Igreja Católica, pequenos passos de aproximação com
o público LGBT foram dados recentemente. Segundo a Arquidiocese de
Brasília, o papa Francisco tem ressaltado que a Igreja deve ser mãe
misericordiosa, que acolhe e cuida de todos, sem excluir ninguém. No
entanto, não há atividades pastorais na arquidiocese da capital
destinadas especialmente a homossexuais. A postura que tem sido adotada é
a acolhida respeitosa e fraterna de todas as pessoas nas comunidades.
Para a instituição, o valor ou a dignidade de cada indivíduo não
dependem de sua condição social ou sexual. Isso não implica, contudo, a
perspectiva da realização de casamentos gays, por exemplo.
Caio Fábio, da Caminho da Graça: ele prega que Jesus não condenou a homossexualidade (Foto: Roberto Castro)
No meio-termo desse debate está a Caminho da Graça, do
reverendo Caio Fábio D’Araújo Filho. Sua congregação, atualmente
sediada na casa onde mora, no Lago Norte, não é voltada para a
comunidade LGBT, mas não considera pecadores os gays que a integram. A
presença de fiéis homossexuais na Caminho da Graça segue uma proporção
semelhante à que existe na população nacional, algo em torno de 10% dos
seus membros. Na pregação do reverendo, Jesus Cristo teria tratado de
forma tão natural a homossexualidade que nem a menciona. “Se fosse algo
tão importante, ele teria tocado no assunto. Mas preferiu marcar temas
como avareza, adultério e promiscuidade”, afirma Caio Fábio. Segundo
ele, o verdadeiro cristão tem de ser, acima de tudo, um discípulo de
Jesus. Na opinião do religioso, o filho de Deus tem primazia sobre os
outros apóstolos e profetas. Se ele não condenou a prática, então não há
nada de errado. Uma de suas fiéis, que não quis se identificar, diz
preferir uma igreja verdadeiramente aberta a uma voltada especialmente
para homossexuais.
Nem as discussões fervorosas nem as duras reações a
beijos gays exibidos em novelas na TV, no entanto, devem frear o ímpeto
de expansão das igrejas inclusivas. A tendência leva a crer que elas
deixarão, em breve, o status underground dos últimos anos. Com seis
unidades no Rio de Janeiro, duas em São Paulo e uma em Minas Gerais, a
carioca Igreja Cristã Contemporânea anuncia seu plano de desembarque no
Distrito Federal. Brasília, ainda sem uma data marcada, será o próximo
destino, depois de Salvador. “Já estamos preparando pastores versados na
teologia inclusiva”, afirma Jorge Garcia, diácono na instituição.
FONTE: VEJA
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