Educada sem trégua para ser homem, afinal, nasceu assim, ela agora é mulher. Nascida em casa, de parteira, numa cidade pequena, da região Norte do País, Claire teve, apesar de não completamente desenvolvido, o pênis como determinante. Era menino, sem querer ser.
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"Minha
infância foi marcada assim por violência incitada pela minha androgenia
e meu comportamento feminino. Isto porque nasci levemente acometida por
uma condição conhecida como ambiguidade genital. Este pequeno disturbio
hormonal, na fase feto, que apesar de ter impedido minha genitália de
se formar plenamente, permitiu que ela se desenvolvesse suficientemente
para que o meu sexo fosse determinado como masculino, de acordo meu meus
cromossomos XY".
Este é o resumo do nascimento de Claire Leal. Hoje, aos 48 anos, ela protagonizou, sem ao menos querer, a polêmica instalada na UFMS
que culminou no incêndio da sala anexa ao DCE (Diretório Central
Estudantil), queimando 200 livros. Tudo enraizado no preconceito.
Os episódios de violência gratuita começaram na sala de aula. Acadêmica de Letras, Claire já é formada no mesmo curso,
mas buscava habilitação também em espanhol. Ao ser agredida verbalmente
e depois ameaçada fisicamente, ela fotografou os agressores para que
pudesse identificá-los. A tentativa de se defender sem retribuir a
violência terminou em hostilização a ponto de ela ter de sair do
Restaurante Universitário escoltada por seguranças da Universidade.
Esta
foi apenas uma das recorrentes situações de preconceito já vividas.
"São traumatizantes, recordo da violência que sofri", diz.
A
vida dela foi entre o Norte, Mato Grosso doo Sul, São Paulo e
Inglaterra. No início dos anos 2000, quando relata ter estado num quadro
de depressão severo, começou a se tratar com psiquiatra. "Eu estava
muito magra, a comida não tinha sabor. Meu corpo decidiu morrer, apesar
de que eu nunca ter essa coragem", conta.
Dos
anos de terapia e medicamentos, saiu fortalecida e como ela mesma diz:
"comecei a desafiar o mundo". Até então ela só se vestia como mulher à
noite, quando os olhares eram em menor proporção. As roupas até então
foram sempre unissex, que não revelavam quem de fato ela era. "As
pessoas zombavam de mim, da minha aparência andrógina", lembra.
Encaminhada
ao Hospital das Clínicas em São Paulo para fazer a reconstrução
genital, teve medo devido à alta taxa de óbito pesquisada. Há dois anos,
ela conta que vendeu o que tinha para fazer a cirurgia na Inglaterra.
"Quando me olhei no espelho, foi uma sensação maravilhosa, parece que eu
já era assim".
Da Inglaterra, Claire
conta ter feitoo mais que a cirurgia. Encontrou um grande amor. O
relacionamento começou em 2007, através de um site. Para ele, ela se
abriu e explicou a condição. "Ele nunca tinha conhecido alguém assim
antes, pediu tempo para pensar e depois de um mês voltou", lembra. Já se passaram 7 anos da história, inclusive o período da cirurgia.
O
que trouxe Claire aqui, novamente, foi a alteração nos documentos.
Exatamente há 1 ano ela espera por decisão da Justiça para retificar a
certidão de nascimento. "Para eu poder me casar", completa. O nome
antigo, que ela prefere não falar, termina com a letra "e" e na época do
nascimento, servia para os dois sexos.
O
"Claire" foi dado por uma freira católica num instituto de caridade em
São Paulo no qual ela participava de ações solidárias. "No convento, não
sabiam de nada, ela era uma senhora de idade. Quando perguntou meu nome
e eu falei, ela entendeu Claire. Eu não quis corrigir e deixei e ela
passou a me apresentar como Claire", explica.
A mudança de nome é uma medida cautelosa e como o tempo
seria o seu maior contraponto de angústia, Claire escolheu voltar para a
universidade. "Foi para não enlouquecer. Mas eu sabia de tudo o que ia
sofrer", pontua.
Segundo ela, alguns
dos professores eram os mesmos da época em que cursou Letras pela
primeira vez. Na secretaria acadêmica, ela sustenta ter levado o
requerimento para ser chamada por Claire e ainda pediu sigilo. "E não
foi nada disso que aconteceu", argumenta.
"Eles
começaram a me olhar, talvez me vissem como travesti e este episódio,
eu quero entrar contra. Eles já estão identificados", comenta.
No tempo
em que aguarda a documentação sair, ela não conseguiu emprego mesmo
tendo um currículo com fluência no inglês. Agora ela diz seguir a vida
da melhor forma possível. "Mas a vida foi muito injusta comigo. Todo
mundo nasce completo, por que eu nasci pela metade? Por que eu era
diferente? Por que me rejeitaram e me agrediram tanto?" se pergunta.
Depois do episódio da UFMS, Claire diz que apesar da acolhida do DCE e do grupo LGBT, não se sente parte do que a sigla representa. "O que eu quero ser é embaixadora. Promover o diálogo entre esses dois mundos: a sociedade e os LGBT".
fonte:campograndeniws
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