Ontem, dia 9 de outubro, muitos esquerdistas nostálgicos relembraram o
falecimento de seu ícone-mór, o guerrilheiro argentino Che Guevara que
lutou, com Fidel Castro, para a implantação da mais antiga ditadura
latino-americana ainda vigente. Entre os nostálgicos, inclusive muitos
homossexuais que ou não sabem ou se fazem de esquecidos do que a
"revolução cubana" representou para los maricones da ilha caribenha. Como recordar é viver, segue tradução de artigo sobre o fórum Cuba, Revolução e Homossexualidade, realizado em Madrid em 2008, quando escritores, poetas, editores, políticos e exilados cubanos retomaram a verdade oculta atrás do mito.
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| Zoé Valdés, escritora cubana. |
Durante o fórum Cuba, Revolução e Homossexualidade, realizado em Madrid
em 2008*, a escritora cubana Zoé Valdés lamentou o pouco conhecimento
existente sobre a vida e a obra de Che Guevara. Bem distante da imagem
oficializada, o guerrilheiro argentino de fato “propunha modelos de
perfeição viril que condenavam a homossexualidade, a bissexualidade e a
transexualidade”.
A homofobia revolucionária
Nos dois dias do fórum, escritores, poetas, editores, políticos e
dissidentes exilados debateram sobre a homossexualidade em Cuba e a
repressão que a revolução exerceu contra as minorias sexuais.
O cartaz do encontro é ilustrativo (ver acima): segundo Valdés, a mítica
foto de Ernesto “Che” Guevara, por Alberto Korda, enfeitada com as
cores do arco-íris da bandeira gay, “teria deixado o guerrilheiro
irritadíssimo”.
Valdés explicou que em Cuba se idealizou o conceito de “homem novo”, proposto por Che Guevara em sua obra O Socialismo e o Homem em Cuba. Diferentemente da ideia de um homem livre, o conceito “propunha
modelos fascistas e machistas de perfeição viril que negavam a
homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade”.
Lamentando que “no mundo se use a imagem de Che Guevara sem de fato se conhecer o que ele pensava”. a escritora declarou:
É preciso conhecer os livros que ele escreveu e não o que se escreve sobre ele. É como colocar uma foto de Hitler sem saber quem era. Esse uso foi e continua sendo muito prejudicial ao mundo.
Valdés também falou da paixão que o fundador do Instituto Cubano de Cinema, Alfredo Guevara, sentia por Fidel Castro:
Todo dia 31 de dezembro, esperava, como uma noiva, que Fidel o chamasse para felicitá-lo pelo aniversário.
Em sua opinião, a situação dos homossexuais em Cuba “não mudou muito”
desde o início da revolução, apesar de já haver órgão estatal vendendo o
contrário:
Não mudou muito mesmo agora em que se fala do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), um projeto dirigido por Mariela Castro, filha de Raúl Castro e, portanto, outro órgão do governo.
Para a escritora, a revolução cubana é um produto de exportação vendido pelo maior marqueteiro da História:
Fidel é o maior especialista em marketing do século XX. Criou um produto que vendeu em todo o mundo e que continua a ser comprado. Para nós, cubanos, também vendeu a ideia de que a revolução acabaria com as injustiças, que seríamos livres, mas a realidade foi bem outra.
Por sua vez, o poeta León de la Hoz recordou que, em Cuba, muita
gente chama Raúl Castro de “a mocinha de olhos tristes”, em referência à
sua suposta homossexualidade não assumida.
O Fórum começou com um debate sobre o poeta José Mario que morreu pobre e solitário, em Madri, em 2002. O poeta foi uma das vítimas dos rigores das Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP), onde o regime castrista “reeducava” os homossexuais.
Nesses campos, como o escritor Jacobo Machover informou que José Mario
sempre comentava, os dirigentes cubanos emularam o dístico “O trabalho os fará livres”
que encimava a entrada dos campos de concentração nazistas. No campo em
que o poeta esteve internado, em Camagüey, como indicativo da
mentalidade comunista sobre a homossexualidade, podia-se ler um cartaz
com os dizeres “O trabalho os fará homens”.
Nas palavras do também poeta Felipe Lázaro, diretor do editorial
Betania, a perseguição sofrida por José Mario, similar à vivida por
outro escritor homossexual, Reynaldo Arenas, condicionou muito
negativamente sua vida:
José Mario foi uma vítima da revolução, da implacável máquina de destruição que a revolução representa.
Publicado originalmente em El Nuevo Herald via AGMagazine. Tradução e adaptação Míriam Martinho
Notas adicionais do blog O verdadeiro Che Guevara, com as referências bibliográficas correspondentes.
Os campos de concentração cubanos abrigaram todos aqueles que não se
encaixavam na ideia de “homem novo”: gays, católicos, testemunhas de
Jeová, alcoólatras, sacerdotes do candomblé cubano e, mais tarde,
portadores de HIV. “Como poderia o homem novo se libertar do
capitalismo? Essa era a questão central para os líderes revolucionários
da época, principalmente Che Guevara, um insistente proponente da ideia
de um homem novo e um dos mais convictos líderes homofóbicos do período”, afirma o escritor cubano Emilio Bejel no livro Gay Cuban Nation. (2000, p.24)
O poeta e dramaturgo Virgilio Piñera, por exemplo, tinha sido exilado
político da ditadura anterior, a de Fulgencio Batista. Em 1961, foi
preso durante a “Noite dos 3 Ps”. Amigo e colega de trabalho de Virgilio, o escritor Gillermo Cabrera Infante explicou o episódio no livro Mea Cuba. “Um
departamento especial da polícia, chamado de Esquadrão da Escória, se
dedicara a deter, à vista de todos, na área velha da cidade, todo
transeunte que tivesse um aspecto de prostituta, proxeneta ou pederasta”,
escreveu Infante. (1996, p.91) Virgilio conseguiria escapar da prisão,
mas não do preconceito de Che Guevara. Anos depois, Che viajou para a
Argélia e visitou a embaixada cubana local. Ao dar uma olhada nos livros
da estante da embaixada, deparou-se com o Teatro Completo de Virgilio Piñera. “Como é que você pode ter o livro dessa bicha na embaixada?”,
disse ao embaixador enquanto atirava o livro pela parede. O embaixador
desculpou-se e jogou a obra no lixo. (INFANTE, 1996, p.341)

Referências:
BOJEL, Emilio. Gay Cuban Nation. Chicago: University of Chicago Press, 2001. 257 p.
GUEVARA, Ernesto (Che). Textos Políticos. São Paulo: Global, 2009. 88 p.
INFANTE, Guilhermo Cabrera. Mea Cuba. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 518 p.
* Cuba, Revolução e Homossexualidade, realizado em Madrid, em janeiro
de 2008, pela Confederação Espanhola de Associações de Lésbicas, Gays,
Bissexuais e Transexuais (COLEGAS) na Casa América de Madri, Espanha.
Fonte: Um Outro Olhar

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