
RIO - Um beijo, logo no primeiro capítulo de
“Babilônia”, na segunda-feira, selou para os espectadores da novela das 21h a
relação de Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg). Juntas há
décadas, as duas têm um filho, Rafael (Chay Suede), neto biológico de Estela.
Mais cedo, na trama das 18h, “Sete vidas”, Regina Duarte é Esther, que
recorreu, junto com a companheira (hoje já morta), a um banco de sêmen para
gerar seus dois filhos, Laila (Maria Eduarda Carvalho) e Luis (Thiago
Rodrigues).
Com três das maiores atrizes brasileiras, esses
núcleos dos dois folhetins, que estrearam há pouco, refletem uma mudança em
curso na sociedade brasileira: a formação clássica de família, com pai, mãe e
filhos, já não é maioria no país.
O último censo do IBGE, em 2010, mostrou que as
novas configurações familiares estão em 50,1% dos lares, ou seja, somam 28,647
milhões, 28.737 domicílios a mais que a formação clássica. São casais sem
filhos, pais ou mães solteiros, netos criados por avós, irmãos e irmãs, casais
gays, amigos convivendo, pessoas morando sozinhas, famílias “mosaico” (as dos
“meus, os seus e os nossos filhos”)...
Alguns desses modelos vêm sendo representados na
teledramaturgia. E nas duas novas tramas a diversidade chama a atenção. Em
“Sete vidas”, a tal família “mosaico”, por exemplo, foi atualizada. Lígia
(Débora Bloch) é a mãe do bebê Joaquim, fruto de seu relacionamento com Miguel
(Domingos Montagner), e se casa com Vicente (Ângelo Antônio), pai de Pedro
(Jayme Matarazzo), gerado com o esperma de um doador, que vem a ser Miguel.
Estranhamento do público? Só num primeiro olhar,
crê a autora de Sete Vidas, Lícia Manzo.
Em princípio, qualquer mudança pressupõe medo e
certa resistência, mas acredito que o afeto é capaz de nos conduzir por onde
quer que seja. Onde falta tradição, é o afeto que irá legitimar todos os laços.
Por conta da novela, assisti a documentários, reportagens e realities sobre
filhos de doadores anônimos. Por trás de cada história, sempre uma nova
família: mãe solteira com filho, duas mães, grupos de meio-irmãos de até 30
pessoas”, diz Lícia, que se amparou em pesquisas para criar sua novela cuja
trama principal é a ligação de sete meio-irmãos gerados por um doador anônimo.
“Em um trabalho que aborda um tema real e contemporâneo, a pesquisa para mim é
imprescindível. De acordo com dados, a formação clássica deixou de ser maioria
nos lares. E me pareceu oportuno dar voz a esses personagens”.
As múltiplas famílias também estão retratadas em
Babilônia. Autor da trama ao lado de Gilberto Braga e João Ximenex Braga,
Ricardo Linhares cita os exemplos presentes na trama das 21h: além de Rafael e
suas duas mães, Teresa e Estela, há a mulher provedora, como Regina (Camila
Pitanga), mãe solteira de Julia (Sabrina Nonata), que ajuda a mãe, Dora
(Virginia Rosa), e o irmão, Diogo (Thiago Martins); Karen (Maria Clara
Gueiros), que sustenta o lar junto com a mãe, Zélia (Rosi Campos), já que o
marido, Luis Fernando (Gabriel Braga Nunes) vive desempregado. Há, ainda, Tadeu
(Cesar Mello), responsável pelos irmãos Wolnei (Peter Brandão) e Carlinhos
(Cauê Campos) depois da morte dos pais; e Fred (Filipe Ribeiro), que, após a
separação dos pais, opta por morar com Carlos Alberto (Marcos Pasquim), entre
outros.
“Os novos
arranjos familiares não são modismo. São a realidade do dia a dia brasileiro.
Quem não vê essa mudança não olha ao redor”, observa Linhares.
Em Babilônia, os autores contam não ter se apoiado
em em pesquisas (“Somos 100% intuitivos”, afirma Ximenes), mas nem por isso
estão afastados do que acontece no seu entorno.
O papel
da novela é entreter. Acontece que o escritor busca, na vida real,
matéria-prima para conflito. Babilônia, reflete a diversidade das famílias na
vida real”, destaca Ximenes. Autores, atores e especialistas refletem sobre a
realidade dos novos arranjos familiares representada em novelas
Estatuto da família
Já que os personagens das duas novelas foram
criados há bastante tempo, coincidentemente, o debate sobre novas formações
familiares está em voga no país. No último mês, as hashtags
#emdefesadetodasasfamílias #somostodosfamília e #nossafamíliaexiste marcaram
presença nas redes sociais em resposta ao desarquivamento do Projeto de Lei
6.583/2013, mais conhecido como o Estatuto da Família, pelo presidente da
Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que restringe família ao núcleo
formado por um homem, uma mulher e seus descendentes. E que também proíbe a
adoção de crianças por casais homoafetivos.
O
Estatuto da Família não é excludente apenas com famílias homoafetivas, mas
também com as diversas formações familiares contemporâneas”, comenta Linhares:
“O estatuto é inconstitucional e anacrônico, poderia ter sido inventado por
Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira), o político corrupto e hipócrita da novela. A
Constituição é clara: o Brasil é um país laico. Os fundamentalistas religiosos,
portanto, não têm respaldo jurídico para tentar impor seu gosto pessoal”.
Lícia tem opinião similar:
Me causa
espanto a tentativa de criar um ‘manual de normalidade’ a esta altura, quando o
modelo de família tradicional deixou de ser maioria nos lares brasileiros, me
parece defasada e ingênua”.
Advogada especializada em adoção, Silvana Monte foi
uma das que iniciaram a reação ao desarquivamento do projeto do Estatuto da
Família. Ela comemora a presença de lares formados por múltiplas combinações
nas novelas e acredita que isso ajuda sim a derrubar preconceitos.
Quando se
coloca dois ícones da teledramaturgia como Fernanda e Nathalia numa relação
homoafetiva que perdura, como qualquer casamento, até a terceira idade, você
mostra para a sociedade que o amor supera o preconceito e a homofobia. A gente
precisa realmente desmistificar essa questão”, avalia Silvana, que gostaria de
ver Estela e Teresa engajadas na luta contra o estatuto usando as hashtags do
movimento no Twitter.
Silvana explica que o estatuto não marginaliza
apenas as famílias homoafetivas, mas todas as em que não há descendência
biológica. Ela
acredita que ver diferentes tipos de família na TV as tiram da
‘invisibilidade’.
Em Império, por exemplo, foi mostrada uma família
poliafetiva, a de Xana (Aílton Graça), Naná (Viviane Araújo) e Antônio (Lucci
Ferreira), que adota o menino Luciano (Yago Machado). Quando falamos de
poliafetividade, não se trata de polissexualidade, isso não parecia haver nesse
núcleo. A família hoje em dia se baseia no afeto e no carinho”.
Representar na TV com naturalidade os novos
arranjos familiares é o propósito de autores e atores. E, mesmo sem militância,
as obras mostram que ainda existe preconceito. Em uma cena de Babilônia, Teresa
é chamada à escola do filho para ouvir que o menino ter duas mães não é bem
aceito e seria melhor que ela fosse chamada de ‘tia’. Em Sete Vidas, Esther vê
o filho se tornar um conservador.
Estamos
mostrando um casal que tem uma vida comum. O preconceito está diminuindo, mas
ainda está aí. A sociedade já caminhou bastante”, afirma Fernanda Montenegro.
Chay Suede completa:
O meu personagem não conhece outras mães que não
sejam as dele, é super cabeça-feita e tem uma família como qualquer outra
pessoa. Toda família é única”.
Naná (Viviane Araújo) e Xana (Aílton Graça), da
recém-terminada Império, também são citados pela antropóloga Mirian Goldenberg:
É exemplo de família completamente fora do padrão,
mas que convence por ter um lado humano. Afinal, quem disse que não existe vida
sem sexo? A sociedade tem que passar a reconhecer os arranjos como legítimos,
porque mesmo quando os comportamentos mudam, acho que os valores tradicionais
ainda resistem”, defende ela.
O autor Aguinaldo Silva ressalta que, apesar de
ficcionais, as novelas sempre procuram refletir o que acontece na vida real:
‘Para o bem ou para o mal’. “Seria hipocrisia
fingir que isso não existe na ficção, não mostrar casais formados por pessoas
gays, por exemplo. É um pouco obrigação do novelista tratar desse assunto de
maneira positiva. A trama da Xana foi bastante avançada porque foram dois
homens, uma mulher e uma criança juntos no final”.
Foi o que houve em Amor à Vida (2013), quando
Walcyr Carrasco juntou Niko (Thiago Fragoso) e o malvado redimido Félix (Mateus
Solano). O casal se beijou no último capitulo – cena que entrou para a história
das telenovelas – e terminou com dois filhos, um biológico de Niko, gerado por
inseminação, e o outro adotado.
O importante ao mostrar as diversas formações
familiares atuais é promover a aceitação. Acho que o autor, em todos os seus
trabalhos, tem que mostrar no que acredita, e eu acredito que a realidade é
múltipla, com famílias tradicionais, conservadoras, liberais, inovadoras. Tudo
faz parte de nosso mundo atual”.
Outro ponto que Walcyr destaca é Niko ter adotado
Jayminho (Kaiky Gonzaga), um menino negro e já mais crescido:
Acho importante promover a adoção interracial.
Crianças negras costumam ser rejeitadas na hora da adoção. Crianças mais velhas
também. Quis quebrar esse paradigma”.
Triângulo
Já em 2007, Aguinaldo explica ter apostado em uma
formação familiar ‘inédita’:
Em Duas Caras, fiz um triângulo formado pela Dália
(Leona Cavalli), Bernardinho (Thiago Mendonça) e Heraldo (Alexandre Slaviero).
Quando Dália fica grávida, eles optam por não saber quem é o pai. E a filha de
Dália é registrada por dois pais”, recorda o autor.
Para Mírian, alguns tipos, no entanto, ainda não
são muito retratados na ficção. Por exemplo, as mulheres que vivem sozinhas,
que já somam 3,4 milhões em todo país. Isso, para a antropóloga, merece
reflexão.
O legal é que as novelas estão mostrando que não
existe um tipo de família, uma normalidade, uma obrigação. Só que eu acho que a
novela ainda reforça a ideia de que para uma mulher ser normal, ela tem que
casar e ter filhos no último capítulo. Talvez seja um avanço mostrar que a
felicidade é subjetiva, mas ao mesmo tempo acho que todo mundo se sente
obrigado a cumprir um padrão que ainda continua forte como modelo”, argumenta.
Filha da personagem de Regina Duarte em Sete Vidas,
a atriz Maria Eduarda crê que a novela ajuda a tornar situações como essas mais
‘palpáveis’ aos olhos do espectador. Ela conta que, antes da trama, conversou
com uma mulher que tinha dois filhos, um menino e uma menina, com sua
companheira. Cada criança gerada por uma das mães por meio de inseminação.
Na escola, minha filha de 4 anos tem uma amiguinha
com duas mães, outra que foi adotada por uma mãe solteira. Eu mesma não estou
mais casada com o pai dela. Se antes esses arranjos eram vistos como fora do
padrão, hoje configuram as infinitas possibilidades de família. O preconceito
ainda está muito arraigado, falar e mostrar isso, é mais um jeito de ir contra
ele”, analisa.
Doutor em teledramaturgia Brasileira e
Latino-Americana na USP, e integrante da Academia Internacional de Artes e
Ciências da Televisão de Nova York (Emmy), Mauro Alencar também acredita que
entretenimento e reflexão andam juntos na teledramaturgia.
Afinal, a telenovela conseguiu extrair do cotidiano
a matéria-prima para a sua ficção. Portanto, segue com seu propósito de
mediadora social. Tudo o que a novela apresenta já está na sociedade. Sua maior
virtude é apresentar, explicar, levar a uma compreensão e, com isso,
transformar a dor, o conflito proposto, em manifestação artística”, explica.
Pioneira ao inserir em suas tramas avanços
tecnológicos para criar dramas e conflitos nas histórias, como em Barriga de
Aluguel (1990), Gloria Perez acredita que Lícia Manzo está se aprofundando no
tema como Sete Vidas.
Em
Barriga de Aluguel, eu quis discutir a configuração de uma nova família a
partir de uma criança com duas mães. A maternidade, até então, era
inquestionável, e sempre foi uma evidência. A paternidade, sim, era
questionada. Mas e quando você separa óvulo do útero? Muita gente associa a
gravidez ao parto. Quis discutir a ética disso. Hoje esse tema já figura no
código. A genética sempre foi um assunto que me interessou. Tudo isso cria
núcleos familiares novos”, observa Gloria.
Em Sete Vidas, por exemplo, Marlene (Cyria Coentro)
é uma mulher que se separa já madura e precisa do banco de esperma para gerar seu
filho, Bernardo (Ghilherme Lobo), sozinha.
Fertilização
As formas contemporâneas de fertilização podem até
se transformar em comédia. Na série Pé na Cova, por exemplo, Odete Roitman
(Luma Costa) e Tamanco (Mart’nália) decidem ter um filho por meio de
inseminação artificial, usando como doador Marcão (Maurício Xavier), irmão de
Tamanco. Mas as amostras são trocadas na clínica do Dr. Zóltan (Diogo Vilela),
e nasce uma criança oriental para fazer parte da família, que já conta com o
menino Sermancino (Gabriel Lima), adotado pelo casal. Na nova temporada da
atração escrita por Miguel Falabella, prevista para o primeiro semestre,
veremos como está essa família.
Desde o
início, eu sabia que queria escrever uma comédia sobre a tolerância. A minha
ideia principal era uma bizarra família do Irajá que se mantinha unida e em pé
por causa de um conceito de família, e consequentemente uma família tolerante,
já que eles eram todos ‘marginais’. Agora, o grande conflito é o novo filho do
casal, a criança chinesa concebida por inseminação artificial”, adianta
Falabella.
A expectativa de todos os autores parece ser, ao
menos, fazer o público pensar:
Ao mostrar com naturalidade as novas famílias, as
novelas levam o público a encarar de forma natural os novos arranjos que vê no
dia a dia. O importante é ressaltar a igualdade de direitos de todos, não
importa a orientação de cada um. O espectador não precisa concordar, mas
refletir”, pondera Linhares. Colaborou Zean Bravo.
Fonte: Um Outro Olhar
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