Carnavalesca Rosa Magalhães conta ao iGay como criou a alegoria. Funcionários gays da escola verde e rosa comemoram homenagem à comunidade LGBT
A
alegoria tem tudo para ser um dos maiores destaques dos desfiles da
Marquês de Sapucaí neste ano. Alvo de muita especulação nos bastidores
do carnaval carioca, o carro sobre a parada gay promete causar comoção
na passagem da tradicional escola de samba Mangueira na passarela do
samba. Nele, estarão 32 homens que vão entrar em armários com trajes
masculinos. Saindo deles, logo depois, eles vão se tornar belas drag
queens.
Detalhe do carro da parada gay revelado à reportagem do iGay em visita ao barracão da Mangueira .
A responsável por essa ‘mágica’ é a carnavalesca Rosa Magalhães,
que estreia na escola depois ser campeã no ano passado pela Vila
Isabel. Ela vai comandar o enredo “A Festança Brasileira Cai no Samba da
Mangueira”, que aborda as festas populares que acontecem em todo o
Brasil. O carro da parada gay se encaixa no desfile como o principal
evento festivo da cidade de São Paulo.“
Fazendo a pesquisa sobre o tema, eu percebi que a expressão
‘sair do armário’ , que é muito engraçada e ninguém sabe de onde veio , é
usada em muitas línguas. Surgiu então a ideia de brincar com essa
expressão, de forma irônica (Rosa Magalhães)Embora reticente em revelar detalhes sobre o carro, Rosa conta a reportagem do iGay
como concebeu a alegoria. “Fazendo a pesquisa sobre o tema, eu percebi
que a expressão ‘sair do armário’ , que é muito engraçada e ninguém sabe
de onde veio , é usada em muitas línguas. Surgiu então a ideia de
brincar com essa expressão, de forma irônica”, revela a carnavalesca,
lembrando ainda a intenção de celebrar os avanços que a comunidade LGBT
alcançou recentemente.“É uma maneira também de
comemorar todas as conquistas que os gays conseguiram ultimamente, como o
casamento, por exemplo” , explica Rosa, que além do carro alegórico,
criou quatro alas representando a diversidade na avenida, com 100
componentes em cada uma delas.Uma das alas será
inclusive coreografada, celebrando justamente a aprovação do casamento
civil gay. Na encenação, homens e mulheres estarão a princípio lado a
lado. Depois, eles vão se separar para formar casais homoafetivos.
No setor LGBT da Mangueira também estarão personalidades importantes da comunidade gay, como o deputado federal e colunista do iGay Jean Wyllys
(PSOL-RJ). "Acho esse retorno que a escola está dando aos homossexuais
algo lindo. Nada mais justo. Na verdade, podemos dizer que a abordagem
deste tema está até mesmo vindo com certo atraso. A comunidade LGBT está
presente nas escolas de samba desde a sua fundação”, avalia Jean.
Além do carro da parada gay, a escola terá alas com o tema da diversidade sexual
Jean pode ter companheiros bem famosos no carro. A verde e rosa convidou para desfilar na alegoria o ator Mateus Solano, o Félix de “Amor à Vida”, e o cantor inglês Elton John, que está fazendo uma série de shows pelo Brasil. Nenhum dois confirmou se vai aceitar o convite.
VERDE, ROSA E GAY
Faltando
poucos dias para o desfile, o ritmo de trabalho é frenético no barracão
da Mangueira, na Cidade do Samba, na região central do Rio. Alguns
funcionários revelam que estão até dormindo por lá, trabalhando do
começo da manhã até o meio da madrugada. Mas sendo homossexuais, eles
fazem esse sacrifício com a alegria de se verem representados no enredo
de sua escola do coração.
Felipe Martins
O carro terá 32 homens saindo do armário em plena Marques de Sapucaí
Um exemplo desse humor inabalável é o aderecista Leonardo Ramos,
31. Chamado de Fininho pelos colegas, por conta dos seus 70 kg
distribuídos em 1,85 m. “Eu quero aparecer no salto... Aqui tem muita
bicha, eu trabalho com três. Lá no ateliê, é o que você mais vai
encontrar”, brinca Ramos, ao ser abordado pela reportagem. "Vai ser uma
afronta levar a diversidade para a avenida. A escola está dando a cara
para bater e isso é muito bom. A Mangueira vem para ganhar, é uma das
favoritas com certeza", profetiza.
O aderecista Andrew Gaspar,
23, ficou emocionado ao descobrir que a verde e rosa fará uma
referência ao universo das drag queens. Ele atua há cinco anos em boates
do Rio como a drag Delayla. “É muito significativo para mim. É uma
grande barreira sendo quebrada. É muito importante que o carnaval
retrate a nossa diversidade desta forma bonita que a Mangueira vai
fazer. Antes de ser drag, eu sou um homem e o carro vai mostrar isso.
Somos homens durante o dia para virarmos estrelas durante a noite”,
filosofa Gaspar.
“
É muito importante que o carnaval retrate a nossa diversidade
desta forma bonita que a Mangueira vai fazer. Antes de ser drag, eu sou
um homem e o carro vai mostrar isso. Somos homens durante o dia para
virarmos estrelas durante a noite (Andrew Gaspar)
No ateliê, onde são confeccionadas as fantasias, a
empolgação é a mesma do barracão. Mas mesmo demonstrando alegria, o
funcionário Vinícius Ribeiro, 23, não deixa de
ressaltar o impacto que o desfile pode ter no combate ao preconceito.
Algo que ele sofreu na pele, ao ser agredido no ano passado. “Estava
caminhando normalmente na rua com um amigo, indo ao cinema, quando
quatro rapazes vieram em nossa direção e nos agrediram. Fiquei um bom
tempo sem sair de casa, com medo, traumatizado”, relata Ribeiro.
A proximidade do desfile deixa todos ansiosos, como não esconde o confesso mangueirense fanático Wilton Souza,
30. “É a segunda vez que desfilo. É uma emoção imensa, o coração quase
sai pela boca. Esse ano tem um motivo especial, uma importância muito
grande para a comunidade gay. Um passo importante para a quebra do
preconceito. Seremos campeões, sem sombra de dúvida”, torce Souza.
O
desfile que eles tanto aguardam está marcado para o primeiro dia do
Grupo Especial do Rio, em 2 de março, um domingo. A previsão é que a
Mangueira passe na Sapucaí por volta da 0h15.
FONTE:IGAY
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